FORTALEZA NÃO TEM DEMANDA PARA SHOWS INTERNACIONAIS?
A discussão vai além do público e revela entraves que raramente entram no debate.
Por Bárbara Rabelo, Eduarda Pompeu e Melissa Venâncio
Foto: @arteproducoes / Instagram
O retorno da banda Guns N’ Roses em Fortaleza após 12 anos reacende uma discussão que volta de tempos em tempos: a capital cearense tem ou não demanda para shows internacionais?
Muitos se perguntam por que as grandes turnês mundiais se concentram no Sudeste e raramente chegam ao Nordeste. O diagnóstico costuma ser o mesmo: “não há público em Fortaleza”, mas será mesmo que não há?
Na prática, os desafios vão além da demanda, pois trazer toneladas de equipamentos para a região não é algo simples.
Quando o artista não consegue fechar uma rota incluindo outras capitais como Recife ou Salvador, o custo logístico, seja aéreo ou terrestre, para uma única apresentação se torna extremamente alto.
Além disso, há a questão estrutural, visto que o Estádio Castelão, principal palco para eventos desse porte, também é o templo do futebol local. Conciliar a montagem de um grande palco, que pode levar dias, com o calendário das competições nacionais exige uma complexa engenharia. Nem sempre as datas jogam a favor da música.
Esse alto custo de produção impacta diretamente o público. Os preços dos ingressos tendem a subir, o que limita o acesso e pode transformar o evento em algo mais elitizado.
Ainda assim, os números e a resposta popular contam outra história. Os 25 mil ingressos vendidos em apenas um dia já indicavam a grande expectativa para o show. E foi no dia 18 de abril que o público cearense confirmou isso, comparecendo em peso no show do Guns N' Roses.
O episódio não é um caso isolado. Ao longo dos anos, Fortaleza já recebeu grandes produções e artistas internacionais que mobilizaram públicos significativos. Os destaques incluem Black Eyed Peas (2010), Beyoncé (2013), Paul McCartney (2013) e Elton John (2014).
Ainda que de forma esporádica, esses eventos demonstram que não só Forteleza, mas como todas as regiões fora do eixo sudeste merecem o devido reconhecimento.
Há ainda um ponto pouco discutido nesse debate: o acesso. Quando uma turnê internacional chega a Fortaleza, ela não atende apenas o público da capital. Ela amplia o alcance para pessoas do interior do Ceará e de estados vizinhos, que muitas vezes não têm condições de se deslocar para o Sudeste para assistir a um show. Ignorar esse fato é ignorar uma dimensão fundamental do impacto desses eventos. Trazer um artista internacional para a região não é apenas uma questão de mercado, é também uma questão de democratização cultural.
Além disso, existe o fator simbólico. Quando uma cidade é incluída em uma turnê global, há um reconhecimento implícito. O público se sente parte daquele circuito. Existe identificação, pertencimento. E isso não se mede apenas em números, mas se reflete diretamente no engajamento e na experiência coletiva.
Diante de tudo isso, insistir na narrativa de que “Fortaleza não tem demanda” parece menos uma constatação e mais uma leitura limitada de um cenário que é, na verdade, muito mais complexo. O que falta, na maioria das vezes, é continuidade, planejamento e uma visão menos restritiva sobre o potencial da cidade.
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